Experiência se tornou palavra obrigatória em apresentação de estratégia. Toda empresa quer entregar experiência ao cliente, ao colaborador, ao parceiro, ao canal. O termo aparece em plano de marketing, em reunião de conselho, em briefing de agência. Mas quando a conversa avança e alguém pergunta o que exatamente aquela experiência deveria provocar em quem a viver, a resposta quase sempre chega em forma de descrição. Um evento bonito. Um ambiente instagramável. Uma ativação criativa. Uma abertura impactante.
Descrição não é intenção. E é justamente aí que boa parte do investimento em experiência se perde.
Existe uma diferença velada entre produzir uma experiência e projetar uma experiência. A produção responde a uma pergunta operacional: como fazer isso acontecer com qualidade, no prazo e dentro do orçamento.
O projeto responde a uma pergunta estratégica: o que precisa ser diferente na cabeça de quem passou por isso.
São perguntas de naturezas distintas, feitas por áreas distintas, em momentos distintos. Na maioria das empresas, apenas a primeira é feita com rigor. O custo dessa lacuna é maior do que parece.
A pesquisa Experience is Everything, da PwC, ouviu quinze mil consumidores e encontrou que 73% apontam a experiência como fator relevante na decisão de compra, atrás apenas de preço e qualidade do produto. O mesmo estudo identificou disposição a pagar até 16% a mais por experiências consistentes. E, no outro extremo, mostrou que 32% abandonariam uma marca que amam depois de uma única experiência ruim.
Aqui, na América Latina, esse número sobe para 49%. Quando quase metade das pessoas está disposta a romper com uma marca por causa de uma experiência isolada, fica difícil sustentar que experiência seja ornamento. Ela é território de decisão.
O conceito não é novo. Joseph Pine e James Gilmore publicaram na Harvard Business Review, ainda em 1998, a tese de que a economia caminhava para um estágio em que o valor deixaria de estar apenas no produto ou no serviço e passaria a estar na experiência memorável construída ao redor deles. Quase trinta anos depois, o mercado adotou o vocabulário com entusiasmo e a disciplina com hesitação. Fala-se em economia da experiência. Continua-se contratando produção de eventos.
O que a memória guarda não é o que o orçamento prioriza
Há um ponto da neurociência aplicada ao comportamento que deveria mudar a forma como experiências são desenhadas, e raramente muda. Daniel Kahneman demonstrou que a memória não registra a média de uma experiência. Ela registra o pico emocional e o encerramento. É o chamado efeito pico-fim. Uma experiência longa e razoável com um final morno é lembrada como esquecível. Uma experiência mais curta, com um momento de intensidade genuína e um encerramento bem construído, permanece.
Traduzindo isso para a realidade de quem aprova orçamento: a maior parte do investimento costuma ser alocada onde há mais superfície visível, não onde há mais memória. Estrutura, cenografia, tecnologia de palco. Todos importantes. Nenhum deles, sozinho, define o que ficará. O momento de pico e o encerramento, que são justamente os dois elementos que a memória retém, com frequência são tratados como itens de cronograma e não como decisões estratégicas.
Uma experiência projetada com intenção começa por outro lugar. Começa por definir qual percepção precisa ser construída ou corrigida, qual comportamento precisa ser ativado, qual relação precisa ser fortalecida. Só depois disso se discute formato, cenário, roteiro e produção. A criatividade continua sendo essencial, mas ela passa a servir a uma direção em vez de substituí-la.
A experiência não começa quando as portas abrem
Existe outro deslocamento importante. A jornada não se limita às horas do encontro. Ela começa no primeiro contato que anuncia que algo vai acontecer e continua semanas depois do encerramento.
Uma convenção anual de rede de parceiros ilustra bem isso. Em modelos de adesão voluntária, nos quais o convidado decide se vai ou não, a campanha que antecede o evento não é comunicação de suporte. Ela é a primeira camada da experiência. É ali que se estabelece a expectativa, se comunica o valor da relação e se constrói o desejo de participar. Quando essa etapa é bem construída, o participante chega predisposto, e predisposição altera tudo o que acontece depois. Quando é tratada como um pacote de e-mails informativos, o evento precisa gastar suas primeiras horas conquistando uma atenção que poderia já estar conquistada.
O mesmo vale para o depois. O encerramento de um encontro costuma ser tratado como fim de projeto. Estrategicamente, é o início da fase em que a percepção se consolida ou se dissolve.
Quando as disciplinas param de operar em silos
É desse raciocínio que nasce a lógica do Live Branding. Não como um formato novo de evento, mas como uma forma de integrar três disciplinas que a maioria das empresas ainda opera separadamente: o branding, que define o que a marca precisa significar; o marketing estratégico, que define quais objetivos de negócio precisam ser alcançados; e os eventos corporativos, que criam o encontro real, presencial e humano em que significado e objetivo se encontram.
Quando essas três frentes trabalham na mesma mesa, a experiência deixa de ser uma entrega isolada no calendário e passa a ser um ativo de construção de marca. Quando trabalham separadas, o resultado é previsível: eventos bem executados que não constroem nada além de boas fotos.
A pergunta que separa empresas que produzem experiências de empresas que projetam experiências é bastante simples, e desconfortável. Alguém na organização consegue dizer, com precisão, o que aquela experiência foi desenhada para mudar. Não o que ela vai ter. O que ela vai mudar.
Quando essa resposta existe, cada decisão de orçamento passa a ter um critério. Quando não existe, o critério vira o gosto de quem aprova.


